No Embalo das Minhas Paixões

Veja PDF com texto crítico de Ivair Reinaldim.
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No embalo das paixões de Patrizia D’Angello

(ou meditações acerca do “gubalo”)

 Ivair Reinaldim

Num momento em que nossa fisionomia é constantemente capturada por grande quantidade de dispositivos técnicos, em que o acúmulo excessivo de imagens registradas parece não mais fundar um repertório coerente ou uma real experiência visual (para além de uma massa imprecisa de arquivos infindáveis), Patrizia D’Angello – qual Narciso frente a seu atraente espelho – apresenta em sua exposição individual um amplo conjunto de pinturas e fotografias cujo mote principal é sua autorrepresentação.

Em No Embalo das Minhas Paixões retoma o procedimento de sua Olympia, referência direta tanto a uma das obras mais emblemáticas de Édouard Manet quanto aos estratagemas da representação do feminino pela arte, ampliando aqui sua investigação através da eleição afetiva de alguns interlocutores, como Diego Velázquez, Andy Warhol, Paula Rego, Cindy Sherman, Nan Goldin e Shirin Neshat, artistas e obras com quem propõe constituir um fértil diálogo.

O que une essa variedade de discursos e visões de mundo, em suma, é a presença constante da imagem da artista em todos os trabalhos expostos, retratada nas mais diferentes situações, das cenas retóricas às atividades cotidianas, e a partir de um imaginário que lhe é bem particular. Nesse processo, tais imagens deixam de ser Manet, Velázquez ou Sherman para tornarem-se, finalmente, legítimos D’Angello.

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Alguns aspectos podem ser mencionados ao considerarmos o universo poético e os procedimentos que compreendem este conjunto de trabalhos. Em primeiro lugar, trata-se de um espantoso número de autorretratos, gênero pictórico que ganhou novo fôlego com o surgimento da fotografia e, mais recentemente, com a grande adesão mundial às redes sociais e à praticidade das câmeras digitais. No entanto, mais que insinuar um forte apelo narcisístico, a artista utiliza e manipula sua própria imagem para investigar e discutir os papéis assumidos e os comportamentos condicionados às mulheres na conjuntura da arte e das sociedades históricas e atuais, demarcando um segundo aspecto importante na análise de sua produção plástico-visual. Em sentido mais amplo, também são trabalhos que se inserem no contexto de um real mediado através da preponderância das imagens, reforçando as particularidades existentes no modo como nos relacionamos com as referências do passado e da cultura como um todo. Essas três dimensões encontram-se, por fim, intimamente relacionadas com as escolhas técnicas, compositivas e de linguagem perceptíveis nos meios de eleição da artista, seja a pintura a óleo, a aquarela, o giz pastel, a caneta hidrográfica ou mesmo a fotografia, cada qual impondo suas especificidades ao processo de concepção dessas re-presentações.

 Se a partir do Renascimento os artistas tomam para si o expediente do autorretrato – pelo menos de modo consciente e mais recorrente –, com o objetivo de ressaltar sua identidade social junto à de seus patronos e às imagens de santos, hoje, com a disponibilidade dos meios técnicos, tornou-se prática comum e banalizada o registro da própria imagem. Em época de fotografias digitais, videoconferências, redes sociais e avatares, a imagem da face reafirma a necessidade de construção de um “eu”, explicitando o modo como queremos ser vistos e percebidos, a partir do desejo constante de controle dessa experiência.

Nesses trabalhos, contudo, Patrizia D’Angello apresenta uma identidade multifacetada: é muçulmana e santa, deusa e prostituta, atriz e dona de casa, dançarina e playmate, mulher e super-woman, perfis que ressoam desde sua mais tenra infância, quando um filme na TV ou uma história narrada num livro já a estimulavam a imaginar-se nesses papéis variados. A criança que vestia as roupas e objetos da mãe cresceu e incorporou esse imaginário em sua prática artística. Suas pinturas e fotografias registram personagens em determinados contextos (aqui, os fundos neutros são tão ideologicamente saturados quanto as demais cenas representadas), reforçando papéis continua e exaustivamente desempenhados, mas também explicitam a natureza multíplice da artista, suas muitas e destoantes facetas, uma vez que o estabelecimento de uma relação de identificação subjetiva com um tempo, uma imagem, uma história qualquer constitui o primeiro passo para o desenvolvimento de seu processo de criação.

É preciso ainda mencionar que historicamente muitas artistas mulheres dedicaram-se à produção de autorretratos, impedidas pelas convenções sociais de usufruir do expediente do modelo vivo ou mesmo de frequentar as Academias de Belas-Artes. Restava às mesmas, então, recorrer à própria imagem refletida no espelho como estratégia para burlar o sistema majoritariamente masculino que insistia em colocá-las à margem. Reside assim aí uma dimensão política da autorrepresentação de artistas mulheres, que não é perceptível nas versões masculinas desta prática.

Contudo, ao apropriar-se de imagens do feminino não só produzidas por mulheres, Patrizia D’Angello ressignifica esses recursos e o debate acerca das transformações ocorridas a partir dos momentos históricos com que dialoga. Haveria algum resquício da polêmica original gerada em torno da Olympia de Manet na versão atual de D’Angello? No momento em que a sexualidade feminina é tratada aparentemente de modo mais livre, talvez a disponibilidade da artista em se representar nua em seu quarto, recebendo das mãos de sua empregada as flores de um suposto namorado, ainda possa chocar ou causar algum desconforto (apenas assumimos a postura de não manifestar publicamente certas opiniões). Qual é de fato a dimensão da real liberação feminina nos dias atuais? Se a representação de uma burca parece circunscrever a problemática a um contexto mais específico, é preciso reforçar que o aborto, igualmente lembrado aqui, é um indício da dominação que o corpo da mulher sofre cultural e socialmente mesmo no século XXI.

Esses trabalhos também demonstram exemplarmente aquilo que o crítico norte-americano Douglas Crimp salientou em seu ensaio Pictures. Na época, Crimp identificava uma nova geração de artistas que ganhou destaque a partir da segunda metade dos anos 1970, justamente por apresentarem uma diferença essencial em relação aos artistas que os precederam. Enquanto na década anterior as pesquisas mais radicais visavam inserir o corpo numa temporalidade próxima ao real, mediante a preocupação com a duração temporal de uma experiência (reforçando uma ideia de “presentidade” artística), com o predomínio dos meios técnicos e de um imaginário comum, artistas passaram cada vez mais a encenar uma imagem em seus trabalhos, reintroduzindo um conteúdo discursivo na sua produção. Passavam assim não mais a buscar a apresentação de um corpo e um tempo “reais”, mas a referência a um reservatório imagético, a um caráter enfaticamente ficcional.

É neste sentido que o trabalho de D’Angello não procura ser uma mera citação de obras e temas caros a outros artistas, mas evidencia o último ato de um processo, em que imagens e referências são escolhidas, cenas são construídas e ações são encenadas para serem fotografadas. Em seguida, essas imagens são manipuladas, editadas, retrabalhadas, para então se transformarem em pinturas, desenhos e fotografias, guardando algum resquício de sua dimensão performativa – embora, em si, esses processos não se constituam como reais performances, em sentido lato, uma vez que a intenção da artista recai na corporificação dessa ação por intermédio de outro meio.

Na pintura, no desenho ou na manipulação digital, essas imagens são deformadas, ganham materialidade, chegando às vezes ao limite do caricatural. Cores, luzes, pinceladas e gestos transformam essas narrativas, cenas e personagens, sem a pretensão de encerrar-se ou esconder-se sob uma camada de preciosidade ou virtuosismo técnico. Nisso ganham força, personalidade ou mesmo leve agressividade: são poéticas, encantadoras, irônicas e provocativas. Na saturação de uma persona-lidade (mais do que num estilo propriamente pessoal) vislumbramos talvez onde se encontre a “real” e verossímil face da artista.